Um dia, Tiago e João pediram a Jesus para se assentarem um à direita e outro à esquerda dele, em Sua glória (cf. Mc 10, 37). Isso causou indignação aos outros apóstolos (cf. Mc 10, 41). E Jesus aproveitou a situação para ensinar algo muito bonito a eles:
Jesus chamou-os e deu-lhes esta lição:
Sabeis que os que são considerados chefes das nações dominam sobre elas e os seus intendentes exercem poder sobre elas. Entre vós, porém, não será assim: todo o que entre vós quiser ser o primeiro, seja escravo de todos. Porque o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em redenção por muitos(Mc 10,42-45).Para o exercício de todo e qualquer ministério, precisamos de uma compreensão profunda do verdadeiro significado do SERVIR! Jesus dá uma ordem para que o serviço ao Reino de Deus não seja conforme a mentalidade do mundo, não seja um meio de autopromoção ou autoafirmação, não seja visto como status, não seja um poder autoritário que domina e escraviza. Ao contrário, servir é fazer-se escravo de todos! E Jesus não apenas falou, mas testemunhou com sua vida: na Última Ceia, Ele cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos discípulos. O texto bíblico continua:
Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes.Precisamos compreender essas coisas e praticá-las. Servir é doar-se inteiramente, renunciar a si mesmo pelo bem do outro. Numa palavra, servir é AMAR, pois ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo 15, 13).
O verdadeiro servo é HUMILDE, pois sabe que é um vaso de barro e, portanto, tudo e qualquer coisa que faça não provém de si mesmo, mas de Deus (cf. 2 Cor 4,7). O verdadeiro servo não serve a si mesmo, nem a homens, mas ao Senhor, e por isso não se vangloria, não espera recompensas e agradecimentos pelo que faz, mas atribui toda a honra e glória somente a Deus. Acolhe as podas e correções com humildade, empenhando-se em melhorar, porque deseja dar o melhor a Deus. Mas reconhece também suas limitações e incapacidades e por isso vive na dependência do Espírito Santo, que vem em auxílio às nossas fraquezas (Rm 8,26-27). Essa postura de humildade e dependência de Deus esperada de nós, servos, é claramente expressa na Palavra:
Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: vem depressa sentar-te à mesa? E não lhe dirá o contrário: Prepara-me a ceia, cingi-te e serve-me, enquanto como e bebo, e depois disso comerás e beberás tu? E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordenara, porventura fica-lhe o senhor devendo alguma obrigação? Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: Somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer. (Lc 17,7-10).É o que Paulo deixa claro aos cristãos de Corinto:
Pois, que é Apolo? E que é Paulo? Simples servos, por cujo intermédio abraçastes a fé, e isto conforme a medida que o Senhor repartiu a cada um deles: eu plantei, Apolo regou, mas é Deus quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta e o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo seu trabalho. Nós somos operários com Deus. […] Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo (1 Cor 3,5-9a; 4,1a).É claro que ser chamado pelo Senhor para uma missão é causa de alegria para nós, pois experimentamos o Seu amor em nossas vidas e desejamos que outras pessoas também o experimentem. Paulo expressa essa alegria na primeira carta a Timóteo: Dou graças àquele que me deu forças, Jesus Cristo, nosso Senhor, que me julgou digno de confiança e me chamou ao ministério (1,12). Essa mesma alegria está presente nos 72 discípulos que Jesus enviou dois a dois: Voltaram alegres os setenta e dois, dizendo: “Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome” (Lc 10,17). Jesus lhes apresenta, então, o motivo pelo qual eles deveriam se alegrar: Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus (Lc 10,20). Esta deve ser a razão de nossa alegria: temos nossos nomes escritos nos Céus! Aleluias! Se somos servos autênticos do Senhor, pertencemos a Ele, e nossos nomes estão escritos nos Céus, somos salvos, cidadãos dos céus (Fl 3, 20), concidadãos dos santos, membros da família de Deus (Ef 2,19). Aleluias! Exultemos de alegria!
Essa mesma alegria é acompanhada da consciência de que não é por mérito pessoal que fomos chamados. Nosso ministério nos foi conferido por misericórdia (cf. 2 Cor 4,1) e sabemos que, se encontramos misericórdia, foi para que primeiro em nós Jesus Cristo manifestasse toda a Sua magnanimidade e nós servíssemos de exemplo para todos os que, a seguir, nele crerem, para a vida eterna (cf. 1 Tm 1,16). Isso deve causar em nós uma profunda gratidão ao nosso Deus Todo-Amoroso, bem como a conscientização quanto à responsabilidade diante do chamado!
Paulo diz que o amor de Deus nos constrange (2 Cor 5,14a). Tenho certeza de que todos nós já experimentamos isso inúmeras vezes! Uma experiência que nos cura, sem dúvida alguma! E Jesus, ao se dirigir a nós, seus servos, nos permite tal experiência uma vez mais quando diz: Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai (Jo 15,15). O Senhor nos chama de amigos! Servir ao Senhor é ser amigo dele! Somos chamados a sonhar Seus sonhos e cooperar para que eles se realizem em nossas vidas e de nossos irmãos. Somos chamados a viver uma amizade e um amor profundos com o Amado de nossa alma, como encontramos no Cântico dos Cânticos. Não é possível ser amigo de alguém se não somos íntimos dessa pessoa. Portanto, ao nos chamar de amigos, o Senhor nos chama, como servos, a vivermos a intimidade com Ele. Não podemos servir se não estivermos aos seus pés. O verdadeiro servo é, antes de tudo, discípulo, que se põe aos pés do mestre e se deixa instruir por Ele. Como servos-amigos, devemos escolher a melhor parte, que não será tirada de nós (cf. Lc 10,42). E essa parte é a intimidade, o relacionamento pessoal do servo com seu Senhor. Lemos no Salmo 24,14: O Senhor se torna íntimo dos que o temem.
E não poderíamos concluir essa reflexão sobre o que é servir sem dizer que Deus nos quer aos Seus pés, porque nos ama. E não nos ama pelo que fazemos, pelo serviço que prestamos, pelo ministério que exercemos. Também não deixa de nos amar quando vacilamos, somos infiéis, pecamos. Deus nos ama porque é Amor (1 Jo 4,8.16) e é próprio do Amor, amar! Que coisa linda! Deus nos ama porque somos Seus filhos, imagem e semelhança Sua. Antes de sermos servos, somos filhos. E só serviremos bem ao Senhor, se vivermos plenamente nossa filiação divina. Assim atesta a Palavra:
não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba! Pai! O Espírito mesmo dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus (Rm 8,15-16).Somos filhos de Deus! Aleluia! E queremos estar a Seus pés e servi-lo porque O amamos! E conclui São João: Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro (1 Jo 4,19). Aleluias! Amém!
2. Servir na RCC
Como sabemos, a célula fundamental da Renovação Carismática Católica (RCC) é o Grupo de Oração. Este é o nosso principal campo de missão. Não podemos achar que a RCC está bem, se nossos grupos de oração não estiverem. Assim, precisamos estar sempre atentos àquilo que o Senhor possa estar nos pedindo, direcionando, orientando, a fim de que nosso grupo de oração seja aquilo que deve ser: um espaço caloroso de oração comunitária (cf. DA 362). É no grupo de oração que semanalmente nos reunimos para celebrarmos e vivenciarmos Pentecostes. Portanto, o grupo de oração deve propiciar a cada participante a experiência do Batismo no Espírito Santo e, consequentemente, um encontro pessoal com o Senhor Jesus. Isso acontece principalmente por meio da oração, do louvor e da pregação da Palavra.
É preciso compreender melhor a importância do Pentecostes para a obra da salvação e o desejo ardente de Deus de nos dar o Seu Espírito, a fim de que também compreendamos melhor a importância da RCC para a Igreja. Deus suscitou a Renovação Carismática Católica na Igreja para ser rosto e memória de Pentecostes. A experiência do Espírito, a experiência de Pentecostes, que denominamos especificamente Batismo no Espírito Santo, é nossa identidade, nossa digital. Para nós, Pentecostes não é um evento passado, mas uma realidade viva, um acontecimento presente, atual. É possível viver Pentecostes aqui e agora! É possível sermos continuadamente repletos do Espírito Santo! (cf. Ef 5, 18).
A esse respeito, o então Cardeal Joseph Ratzinger – hoje Papa Bento XVI – comentou no ano de 1985, durante uma entrevista. Reproduzo aqui a pergunta do jornalista e a resposta do cardeal:
V. Messori: Hoje, observo eu, processa-se uma redescoberta do Espírito Santo, talvez esquecido demais pela teologia ocidental. É uma redescoberta não apenas teórica, mas que envolve crescente massas populares nos movimentos chamados “Renovação Carismática” ou “Renovação do Espírito”.Levar as pessoas a essa experiência do Espírito é a missão primeira de todo servo na RCC, independentemente de ministério. Como servos chamados ao ministério de oração por cura e libertação, devemos ter clareza de que nossa tarefa primordial é propiciar o Batismo no Espírito Santo aos nossos irmãos (aprofundaremos mais esse assunto depois). Essa é a missão e o objetivo de todo grupo de oração da RCC. Assim, todo servo na RCC, em qualquer ministério, precisa:
Cardeal Ratzinger: De fato. O período pós conciliar pareceu corresponder bem pouco às esperanças de João XXIII, que esperava um “novo Pentecostes”. Sua oração, entretanto, não ficou sem resposta. No coração de um mundo feito árido pelo ceticismo racionalista, nasceu uma nova experiência do Espírito Santo que assumiu a amplidão de uma moção de renovação em escala mundial. Tudo o que o Novo Testamento escreve a propósito dos carismas que aparecem como sinais visíveis da vinda do Espírito Santo, não é mais história antiga apenas, encerrada para sempre: essa história torna-se hoje vibrante de atualidade.
1. Participar semanalmente do Grupo de Oração;
2. Conhecer e viver profundamente a identidade da RCC: o Batismo no Espírito Santo;
3. Conhecer a história da RCC, a fim de perceber os sinais de Deus na História e Sua delicadeza em preparar este Novo Pentecostes;
4. Amar a RCC apaixonadamente.
É preciso conhecer mais, para amar mais e servir melhor! Mãos à obra... Para cada um de nós, fica a tarefa – e espero que também o desejo ardente – de buscar a formação sobre a Identidade da RCC – mesmo que já tenhamos feito – e de adquirir e ler os inúmeros livros publicados pela RCCBrasil, que ampliam nossa visão e compreensão sobre nosso movimento e nossa identidade. Sugiro alguns: Celebrando Pentecostes e Escutai o Espírito Santo, ambos de Reinaldo Beserra dos Reis; Aspirai aos Dons do Espírito, de Renato Mengui; Seminário de Batismo no Espírito Santo , do GRTP (Grupo de Reflexão Teológico-Pastoral) da RCC. Isso sem falar nas apostilas de formação do módulo básico (Paulo Apóstolo), que temos a nossa disposição, com conteúdo riquíssimo e confiável. Avancemos para águas mais profundas... Este é o desejo do Senhor!!!
Unido à Maria, a Virgem de Pentecostes,
Rodrigo Bernardes de Queiroz
Coordenador Diocesano do Min. de Oração por Cura e Libertação